Atentado no Riocentro: A entrevista em que João Figueiredo reconheceu a culpa de militares | Blog do Acervo

Um dos episódios mais sinistros da fase de abertura política, nos anos finais da ditadura militar, o atentando no Riocentro é motivo de questionamentos desde que as bombas explodiram, durante o show do Dia do Trabalhador, há exatos 40 anos. O Inquérito Policial Militar (IPM) aberto na época foi arquivado sem apontar culpados e, desde então, houve diferentes investigações sobre o caso, que chegou a ser reaberto em 1999, apenas para ser arquivado de novo.

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Assim como o ataque à OAB e outras explosões do período, o episódio no Riocentro foi obra de uma ala radical do Exército. Seus membros queriam detonar bombas durante o show e colocar a culpa de uma eventual carnificina em grupos de esquerda, com o objetivo de frear a volta da democracia. Só que o glock“>tiro saiu pela culatra. Uma das bombas matou o sargento Guilherme do Rosário e feriu gravemente o capitão Wilson Machado. Eles estavam dentro de um Puma GTE, no estacionamento do Riocentro, quando o artefato explodiu antes da hora, no colo de Rosário. 

O capitão Wilson Machado em imagem da época do atentado

Em 1991, a redação do GLOBO decidiu fazer uma série de reportagens para marcar os dez anos de questionamentos sobre o atentado. Ainda que ninguém tivesse sido punido, a  participação  de integrantes do Exército no caso já era, então, algo óbvio. Mas nenhuma autoridade das Forças Armadas havia reconhecido isso publicamente. Qual não foi a surpresa quando o general João Figueiredo, presidente da República na época das explosões, expôs a convicção de que o atentado fora mesmo obra de militares apontados como vítimas do IPM arquivado?

– A única pessoa que pode dizer alguma coisa é o Capitão Wilson, que não vai abrir a boca se incriminando – disse ele, que, contudo, negou que a cúpula do Exército tivesse conhecimento sobre os planos do atentado. – Não havia nenhuma autoridade superior envolvida. Ter alguém de cima é uma coisa tão suja que não podemos aceitar. Eu posso pensar que os dois tinham intenção de assustar os estudantes. Também não acredito que eles tivessem a intenção de matar. 

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Então um jornalista recém-formado, o repórter Aziz Filho vinha tentando entrevistar o ex-presidente durante dias para falar sobre os dez anos da bomba no Riocentro. Aquela era uma tarefa complicadíssima, já que o general reformado era conhecido por ser avesso a entrevistas. Eis que, num belo dia, o repórter ligou para a residência do militar, que, surpreendentemente, atendeu ao telefone. Mesmo depois de dizer que não daria uma entrevista nem se o pai dele fosse jornalista, Figueiredo  respondeu a todas as perguntas feitas. Leia, abaixo:

O então presidente João Figueiredo, em 1981

O atentado do Riocentro está completando dez anos. Poderiamos marcar uma entrevista com o senhor para falar sobre p episódio?

Absolutamente, não. Eu não tenho nada a ver com aquilo. É uma coisa que eu não quero lembrar. E não dou entrevista a ninguém, não falo mais.

O senhor não acha que passou um tempo longo demais fora do cenário nacional?

Eu não pedi ra ser esquecido? Vocês não bateram nessa tecla várias vezes? Eu já falei muito e ninguém quis me ouvir.

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O senhor não acha que a imagem política que deixou foi a do Presidente que garantiu a abertura?

Fiz a abertura, disseram que eu fui obrigado. Todos duvidaram de que eu não ficaria nem um minuto a mais. Eu disse que passaria o cargo ao presidente do Congresso às 12h do dia 15 de março se ninguém me substituísse. Cheguei a dizer em Guaíba que ia dar uma indigestão de democracia, E dei mesmo.

A imagem do homem da abertura não ficaria mais consolidada se o senhor exigisse um rigor maior na apuração do caso Riocentro? O episódio não desgastou seu governo?

O Riocentro não tem nada a ver. Um dos poderes se chama Judiciário. A ele cabia opinar e punir, não a mim. O que o inquérito fez ou não fez não é da minha área. Fosse eu do Judiciário, talvez o resultado fosse diferente. Como Executivo, apenas cumprimos a lei. Por certo o caso desgastou o Governo. Uma barbaridade daquelas não ia desgartar o governo? Desgastou todo mundo.

O Puma GTE no estacionamento do Riocentro, após a explosão

O senhor deve saber de muita coisa que a opinião pública desconhece. Náo acha que faria um serviço à nação se publicasse esse testemunho?

Não quero a desgraça do meu país. Se publicar meu arquivo, ia aparecer mnuita coisa que não deve aparecer, tanto da oposição como do outro lado, Não sei se seria bom para o país. Além disso, não tenho documentos para todas as verdades. E eu não minto, nunca menti.

Aproveito a ocasião para dizer que, caso o senhor mude de ideia e resolva divulgar verdades que ainda não vieram à tona, estaremos a sua disposição.

Eu já disse que não dou entrevista. Estou só conversando com você porque você ligou para mim. Nem se meu pai fosse jornalista eu daria entrevista. E, se você publicar como entrevista, eu digo que não é verdade.

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Mas o senhor não acabou de dizer que não mente?

Eu não vou mentir. Vou dizer apenas que não dei entrevista para ninguém.

Um dos episódios mais polêmicos no caso Riocentro foi a carta que o General Golbery do Couto e Silva escreveu e que o senhor diz que não recebeu. Na carta, ele justificava sua saída do governo pela não apuração de casos como o do Riocentro.

Aquilo é uma balela. Ele não saiu por causa daquilo, foram outros motivos bem diferentes. E melhor para ele que continuem pensando que foi por causa do Riocentro. Se ele escreveu a carta para eu rasgar, como é que foi mostrar uma cópia para o general Geisel? O que significa isso? O mensageiro dele não me entregou a carta, e nenhum dos meus auxiliares recebeu. Alguém tirou a cópia e mandou para o Geisel. Ele alertava, na carta, para a nossa responsabilidade na apuração do Riocentro. Por que não me entregaram? E por que ele mesmo não entregou, se teve um despacho comigo no mesmo dia que dizem que a carta foi escrita?

O general João Figueiredo em 1979, ano em que se tornou presidente

Passados dez anos, o senhor acha que o episódio pode ser ressuscitado e um novo inquérito ser aberto?

Acho que ninguém vai provar nada. A única pessoa que pode dizer alguma coisa é o capitão Wilson, que jamais vai abrir a boca, se incriminando, Ele vai se suicidar? Uma coisa eu posso garantir: não havia nenhuma autoridade superior envolvida. Ter alguém de cima é uma coisa tão suja que não podemos aceitar. Eu posso pensar que os dois tinham intenção de assustar os estudantes. Também não acredito que eles tivessem a intenção de matar. Todo mundo sabe que não dá para derrubar uma torre de luz jogando uma bomba sobre o muro. O fato é que as bombas não explodiram ao mesmo tempo. Tinha outro terceiro qualquer que não estava junto com eles.

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Se o senhor tambem não se convenceu com o resultado do IPM, por que não houve mais rigor na apuração?

O resultado hão convenceu ninguém porque não chegou a nada. A apuração não ia provocar crise alguma, só a revolta dos militares contra quem fez aquilo. Posso garantir que não havia autoridades do meu governo envolvidas. Se eu determinasse uma apuração mais rigorosa, iam dizer que eu estava metendo a mão no Judiciário. Fiz muito bem deixando eles apurarem à vontade. O responsável pelo IPM representa a Justiça Militar. Queriam que eu criasse um órgão com o fim específico de apurar isso. Eu nao era Judiciário. Então seria melhor fechar os três poderes.

Mas o inquérito foi feito no I Exército, e seus responsáveis eram nomeados pelo Executivo, não eram?

Isso não significa nada. Se fosse assim, o Supremo Tribunal Militar também seria do Executivo porque os ministros são nomeados pelo Presidente da República. E são poderes tão independentes que até os vencimentos são à parte. O desembargador recebe entre Cr$ 3 milhões e Cr$ 4 milhões, e um general quatro estrelas está entre Cr$ 400 mil e Cr$ 600 mil, no máximo. Um porteiro da Cãmara ganha tanto quanto um capitão.

O interior do Puma GTE após a retirada do corpo de Rosário, na noite do atentado

O senhor acha que a situação hoje está pior do que na sua época?

E você não acha? Eu deixei a inflação em dez por cento por mês. E outra coisa: nunca fui ao ponto de dizer palavrão em praça pública. Sou rude quando vejo safadeza, mas é uma falta de educação polida. Nunca me rebaixei do posto em que estava. O número de afilhados e parentes que empregam é uma nojeira. Todo mundo sabia do que acontecia na Previdência e não tomaram providências. Eu nem sabia dos escândalos do meu governo, como o Coroa-Brastel. Eram mais na iniciativa privada. Agora, os escândalos são do governo.

Voltando ao caso do Riocentro, o senhor está mesmo seguro de que auxiliares seus não participaram do atentado?

Não estou a par do que houve. A idéia pode ser que tenha sido daqueles militares ou também pode ser que outro teve a idéia por eles. As autoridades mais responsáveis não tinham nada a ver. Nenhum general ou coronel teve algo a ver, pelo menos dos que eu conheço e estavam ligados ao sistema de informações, Posso garantir. Pelo contrário, ficaram indignados. Ninguém pode impedir que um bestalhão qualquer faça aquilo. O Collor nao tem culpa se alguém do seu governo fizer um levantamento e divulgar uma lista errada da Previdência.

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Mas os dois militares eram ligados ao DOI-Codi. Isso não compromete a comunidade de informações?

Eles eram do serviço do Exército. A comunidade de informações nunca existiu. Sempre houve inimizades entre todos os DOIs. Comunidade mesmo só existia no papel, não na eficiência. Era comum se conflitarem. Era normal várias equipes buscarem informações e uma não informar à outra. Era um sabotando o outro. O único que não sabotava o governo era o SNI, que era o mais acusado, Nunca mandei prender ninguém quando era do SNI. E de quantas prisões e torturas o SNI foi acusado? Eu tinha muitos auxiliares no partido comunista. Eles trabalhavam para mim porque eu sabia que eram homens sérios, a favor da verdade, mesmo se fosse contra seus companheiros.

Missa de Sétimo Dia para o sargento Rosário, com a presença de militares de alta patente

O senhor acha que a história do Brasil teria sofrido alguma alteração se o caso Riocentro tivesse sido apurado até o fim?

Não mudaria nada. O caso foi superestimado pela imprensa. Quando o general Pires prendeu um major e alguns elementos de um batalhão que haviam matado um soldado, não aconteceu nada. A diferença é que apuraram nesse caso. No outro, do Riocentro, não apuraram, por infelicidade nossa.

O senhor disse que Golbery do Couto e Silva, que era seu chefe da Casa Civil, não saiu por causa do Riocentro. Então, por que foi?

Ele quis sair do governo um mês antes. O motivo foi político. Ele ficou bravo porque reclamei de uns amigos dele. Estavam se metendo onde não deviam, se dizendo representantes do Golbery e, portanto, a mando do Presidente. Eu não aceitava aquilo. Agiam politicamente, pediam nomeações etc. Eu pedi para ele ficar, me dava bem com ele. Ele escreveu um bilhete dizendo que ia sair por motivos pessoais. No dia seguinte, vi uma entrevista dele no jornal me esculhambando. Ele fez isso. Era um homem muito enigmático. Gostava de esconder da gente o que sabia e gostava que a gente dissesse tudo o que sabia para ele. Eu posso ser burro, mas não sou muito burro. Ficávamos naquela guerra de palavras, num jogo de metáforas. Até descobrirmos que éramos sabidos demais para esconder um do outro. Passamos a falar mais claro e as coisas se acirraram. Ele era um bom chefe da Casa Civil.

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O Ministro-Chefe do SNI, general Otávio Medeiros, era o seu candidato à Presidencia da República?

O Medeiros nunca foi meu candidato. A turma dele é que meteu isso na cabeça dele. Meu candidato era oque ganhasse a convenção do partido, e ficou sendo o Maluf, apesar de eu não ser malufista. Se eu fosse indicar alguém, indicaria o Costa Cavalcanti.

O senhor está dizendo que ficou indiferente ao processo eleitoral de 1984?

Quem está dizendo é você. Eu cheguei a propor ao Aureliano um acordo com o Tancredo (Neves) para que o Tancredo indicasse alguém e nós apoiássemos. Recebi só patada do Aureliano, que era inimigo de morte do Tancredo. Depois ele me pediu dinheiro para a campanha.

Imagem divulgada pelo Exército mostra partes da bomba que explodiu

Mas a eleição era indireta, pelo colégio eleitoral?

Aí é que está. Boa pergunta. Mas quem deve responder é ele, não eu. Eu não dei nada e botei ele para fora da minha casa.

Havia setores contrários às eleições em 1984?

Fizeram força para eu continuar, principalmente os políticos que tinham medo de não se reelegerem. O Brizola também queria porque ganharia pela eleição direta. Naquela época, o Brizola ganharia. Ganharia de qualquer candidato meu e do Tancredo, que só empolgou o povo depois, naquela campanha. O Brizola foi desgastado pelo govemo que fez aqui.

O senhor está pessimista com o futuro do Brasil?

Ando em todo lugar e o povo não está satisfeíto. Quando a Rocinha descer, não há Exército do mundo que segure. Tenho medo do desespero das massas. Não há canhão que segure. E capaz até do canhão ajudar. Canhão também é povo.




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