Boas e más notícias de uma eleição inacabada

Itamar Garcez *

As eleições municipais de 2020 ainda não acabaram. Faltam os resultados de 57 municípios médios e grandes, cujos vencedores podem alterar a percepção do pleito que mais importa, o de 2022.

Algumas conclusões, no entanto, não precisam esperar as urnas do próximo domingo, 29. A primeira é que eleições municipais têm pouco a ver com eleições gerais. Tira-se um monte de conclusões como se o eleitor fosse plenamente racional, e não o é. Dois anos – a distância entre um pleito e outro – é uma infinidade temporal.

Caso do fim anunciado do capitão-mor. Não, o presidente Jair Bolsonaro ainda não acabou. Seria prematuro e temerário, para os que querem derrotá-lo nas urnas, inferir seu fim.

As eleições gerais de 2022 dependem de fatores ainda não alinhados. Um deles, substancial, é o comportamento de Luiz Inácio Lula da Silva – ele, também, tido como acabado em algumas análises. Antes de mais nada, é necessário saber se os sufetas supremos vão devolver a Lula o direito de se candidatar. Lula no páreo representa a entrada em campo de Maradona ou Garrincha no segundo tempo de um jogo de futebol empatado.

Também é preciso auferir a disposição do ex-presidente, dado que, após sua soltura, Lula tem se mantido recolhido. De qualquer jeito, dado o tamanho do companheiro-mor seria difícil permanecer de fora de um pleito diante da hoje provável candidatura do capitão-mor.

A definição do moderado desconhecido, aquele que aglutinaria os eleitores que não querem saber nem da chamada esquerda, tampouco da chamada direita, é outro fator definidor do páreo de 2022. Como encontrar um moderado que seja vibrante e arrebatador, como costumam ser os extremistas, aspecto decisivo para fustigar o lado emocional dos eleitores?

Já o atual mandatário, que surpreendeu ao vencer as eleições de 2018, mostrou-se resiliente. Quando foi encurralado pelo Legislativo e, sobretudo, pelo STF (Supremo Tribunal Federal), Bolsonaro recolheu suas armas, insuficientes para o golpe que anunciara, e passou a jogar conforme as regras tradicionais. Fez alianças políticas com o Centrão, moderou temporariamente sua língua e tratou de adular os sufetas do STF.

Em que pese sua asfixiante indefinição a respeito de temas cruciais como políticas econômica e sanitária, na hora H, diante de uma possibilidade real da volta da chamada esquerda ao poder, o que farão os eleitores que não querem o retorno da sinistra ao poder, incluindo antibolsonaristas? Talvez embarquem na velha máxima conformista: se não tem tu, vai tu mesmo.

A economia – hoje sem eira, nem beira, nem vereda – será decisiva para a sorte do capitão-mor. Inflação, emprego e renda são fatores que impulsionam o eleitor em direção às urnas, ensinou o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que se reelegeu e concluiu dois mandatos.

“Boulos é o novo Lula”

Outra certeza que emergiu das urnas do último 15 de novembro foi a ascensão do novo líder da chamada esquerda, Guilherme Boulos. O vaticínio, com base no pleito municipal, vai além e atesta que Boulos é novo Lula.

Não há elementos conclusivos que indiquem Boulos como o novo Lula. Até porque não se sabe se Lula abdicará de seu trono de líder do campo das esquerdas, capaz de liderar uma eleição presidencial da cadeia. E será difícil conduzir este contingente sem o PT – que, por sua vez, não existe sem o ex-metalúrgico.

Sim, Boulos credenciou-se para liderar um contingente dos chamados esquerdistas, mesmo que não consiga vencer a disputa pela prefeitura de São Paulo. Porém, seu ranço extremista e sua beligerância verbal são obstáculos à liderança nacional. Transponíveis, mas obstáculos.

A apregoada, porém, equivocada, morte do PT também é empecilho a Boulos. Na política partidária eleitoral, o candidato quer a segurança do mandato. A capilaridade do PT está entre as maiores do País. Sem ela, o sonho da (re)eleição à Câmara, ao Senado e às Assembleias Legislativas é bastante dificultada. O PT não vai abrir mão deste poder legislativo para unir as esquerdas, pois significaria abrir mão de sua hegemonia neste campo. Além disso, os demais partidos deste vasto espectro ideológico, como o PSB, também têm ambições eleitorais, premidas pelo saudável fim das coligações proporcionais.

Era dos moucos

A vitória numérica dos partidos de centro, normalmente conservadores, é ponto favorável à chamada direita, mas pouco indica sobre sustentação e apoios a futuros candidatos. Este grupo é amplo e fluido, e costuma se mover mais por pragmatismo do que por ideologias.

Em 2022, centristas podem apoiar Bolsonaro ou um moderado bem avaliado eleitoralmente, mas o impulsionador será sempre a formação de robustas bancadas legislativas. É nelas que reside a força dos maleáveis partidos de centro.

Fim do extremismo que embala o Brasil, os EUA e outras nações mundo afora? Os quase 74 milhões de eleitores (47%) que prefeririam a continuidade do Governo Donald Trump são a prova de que o radicalismo político persiste entre nós.

Extremistas são barulhentos, assertivos, mentem com convicção e têm nas redes antisociais um campo fértil à propaganda política. Seus alaridos chamam mais a atenção do que a ponderação, a tolerância, o diálogo, a fraternidade, a solidariedade, a razão – atributos, por natureza, mais silenciosos. Na era dos moucos, onde não se ouve, só se fala, o extremismo não vai desaparecer enquanto um extremista estiver à frente do comando da nação.

* Itamar Garcez é jornalista




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