Com mais armas do que pessoas, EUA é panela de pressão prestes a explodir – 09/09/2020

Donald Trump vende um cenário distópico em caso de vitória do democrata Joe Biden nas eleições de 3 novembro, mas a realidade americana ganhou traços mais sombrios justamente no governo do presidente republicano, que estimula divisões e confrontos no país com a população civil mais armada do planeta.

O número de armas em circulação criou uma espécie de panela de pressão prestes a explodir. “Tem armas demais neste país. Os dois extremos, direita e esquerda, estão armados. Não há precedentes na história americana em termos de número de armas como agora”, diz Patricia Acerbi, historiadora e professora da Universidade George Washington.

Há mais armas do que pessoas nos Estados Unidos. Segundo pesquisa do Instituto de Pós-Graduação em Estudos Internacionais de Genebra, na Suíça, os EUA tinham em 2017 uma população de 326,5 milhões de habitantes. O número de armas de fogo em poder de civis era de 393,3 milhões no mesmo ano.

Isso dá 120,5 armas para cada grupo de 100 habitantes, segundo o “Small Guns Survey” (pesquisa sobre armas de fogo, em inglês, numa tradução livre), nome do ranking global feito pelo instituto suíço.

Em 2017, o Brasil possuía 211,2 milhões de habitantes 17,5 milhões de armas, ocupando a 97ª com uma taxa de 8,3 armas para cada grupo de 100 habitantes, de acordo com o mesmo levantamento.

Esse dado ilustra o risco do estrago que pode causar o governo Bolsonaro, que defende armar a população civil.

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Episódios de brutalidade policial contra negros, e tiros entre brancos

Patricia Acerbi afirma que “Trump dá voz e oportunidade para que grupos armados de direita se expressem de forma mais confortável”. Ela ressalta que os dois lados, a direita e a esquerda, estão armados e que isso funciona como um fator que aumenta o risco de conflitos nas ruas americanas devido ao acirramento das tensões sociais por conta do racismo estrutural e dos efeitos econômicos da pandemia de coronavírus.

Em 2020, houve, pelo menos, seis episódios de brutalidade policial contra pessoas negras que obtiveram grande repercussão. E ocorreram dois conflitos entre brancos de direita e esquerda que resultaram em três mortes e um ferido.

O caso de brutalidade policial mais emblemático foi a asfixia de George Floyd, 46 anos, que morreu em 25 de maio porque um policial branco, Derek Chauvin, ajoelhou-se no seu pescoço durante quase 9 minutos.

A morte de Floyd desencadeou uma onda de protestos em maio e junho em cerca de 2.000 cidades nos 50 estados americanos e no distrito de Columbia, onde fica a capital Washington. O episódio teve impacto global, com protestos em grandes cidades do planeta.

Além do assassinato de George Floyd em Minneapolis, no estado de Minnesota, houve outros cinco episódios que são exemplos do racismo estrutural e da violência policial contra os negros (veja mais abaixo).

Trump e Bolsonaro dão palanque ao extremismo

Acerbi, que dá aulas de história latino-americana e brasileira na Universidade George Washington, vê uma semelhança entre o Brasil e os Estados Unidos: “Com Trump e Jair Bolsonaro, os extremos ganharam mais palanque político”.

Ela, porém, acha que o maior nível de escolaridade nos EUA tende a funcionar como um filtro que pode frear a ambição de Trump de se reeleger. “O nível de pobreza e de escolaridade no Brasil é muito baixo. Aqui também temos problemas nesse sentido, uma pobreza que poderia ter sido mais combatida. Mas há um nível de escolaridade nos EUA que é uma diferença importante na hora de votar [e avaliar as propostas dos candidatos].”

A historiadora afirma que a questão racial será central na eleição americana. Setores negros e latinos que votaram em Trump em 2016 seduzidos por um discurso de geração de emprego não teriam motivo para repetir essa escolha em 2020. E o eleitorado branco, que é majoritário, está dividido, com parcela sensível à importância de combater o racismo estrutural.

“Temos um presidente racista. Isso se soma a séculos de violência contra os negros. É uma violência institucional que não foi introduzida agora”, afirma Acerbi, que ressalta, no entanto, haver na atualidade mais eleitores brancos incomodados com o racismo estrutural e que podem fazer a diferença nas urnas contra Trump.

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Sociedade civil é capaz de brecar desintegração do país, diz professora

Apesar de todas essas tragédias nas ruas americanas, a historiadora Patricia Acerbi acha que é “muito forte” classificar a realidade americana como uma distopia. “Podemos chegar a um cenário distópico porque as bases estão armadas, mas a sociedade civil ainda é muito forte nos Estados Unidos.”

Mesmo que haja mais confrontos agora no outono, na reta final das eleições americanas de 3 de novembro, Acerbi avalia que a força da sociedade civil é “capaz de impedir que o país se desintegre e evite o que aconteceu na Alemanha no final dos anos 30” do século 20, quando houve a ascensão do nazismo.

Acerbi também diz ser difícil comparar a atual conjuntura com outro momento da história americana, como analistas fazem frequentemente. Ora, há uma associação com a Guerra Civil entre 1860 e 1865, que quase resultou na divisão dos EUA em dois países. Ora, evocam-se as grandes tensões da década de 60 do século 20 por ocasião do movimento pelos direitos civis, que acabou com a segregação racial e permitiu maior participação dos negros na democracia americana.

“Nunca tivemos um presidente como Trump, tão autoritário e que quisesse ficar no poder”, diz Acerbi. Ela considera que o momento é único na história dos Estados Unidos em termos de ameaça à democracia. A professora acredita que, se for reeleito, Trump tentará mudar a Constituição para obter novos mandatos, como fizeram Hugo Chávez e Nicolás Maduro na Venezuela e Vladimir Putin na Rússia.

Casos de violência vêm desde o início do ano

Em 23 de fevereiro, Ahmaud Arbery, 25 anos, foi morto por dois homens brancos com quem se desentendera. O crime ocorreu enquanto ele corria na rua em Brunswick, no estado da Georgia. A polícia tentou abafar o caso, mas não conseguiu.

No mês março, houve as mortes de Breonna Taylor, 26, e Daniel Pride, 41. Na cidade de Louisville, no Kentucky, Taylor foi executada com oito tiros no seu apartamento no dia 13 daquele mês, quando policiais dispararam contra ela e o namorado, numa busca por drogas.

Pride morreu em 30 de março de sequelas de uma asfixia quando policiais foram chamados para cuidar dele, que sofrera um ataque psicótico e saíra caminhando nu pelas ruas de Rochester, no estado de Nova York. O caso tem semelhanças com o de George Floyd.

Em 12 de junho, Rayshard Brooks, 27 anos, levou dois tiros nas costas ao tentar fugir de dois policiais. Ele adormecera no carro, no estacionamento de um restaurante em Atlanta, na Geórgia. A prisão resultou numa escalada de tensões que levou à sua morte.

Esse episódio é parecido com o de Jacob Blake, 29 anos, que recebeu sete tiros nas costas, disparados à queima-roupa por um policial branco no dia 23 de agosto em Kenosha, no Wisconsin. Blake sobreviveu, mas tem paralisia da cintura para baixo.

Brancos de direita e esquerda se enfrentam armados

Dois confrontos nas ruas envolveram pessoas brancas de direita e esquerda em meio a protestos contra o racismo estrutural e a brutalidade policial nos EUA.

Na madrugada de 26 de agosto, em Kenosha, o adolescente Kyle Rittenhouse, 17 anos, matou dois homens e feriu um terceiro que protestavam contra a violência policial e o racismo. Ele disse que fazia parte de um grupo de milicianos que tentava impedir a depredação de estabelecimentos comerciais.

O adolescente Rittenhouse é apoiador de Trump e do movimento “Blue Lives Matter” (Vidas Azuis Importam), que defende policiais mortos fazendo contraponto ao “Black Lives Matter” (Vidas Negras Importam).

Em Portland, no Oregon, um militante antifacista matou um manifestante de extrema-direita. Michael Reinoehl, 48, deu dois tiros em Aaron Danielson em 29 de agosto. Segundo o atirador, ele e um amigo se sentiram ameaçados por Danielson, de 39 anos, que pertencia ao “Patriot Prayer” (Pregador Patriota, de extrema-direita).

Na quinta-passada, 3 de setembro, a polícia matou Reinoehl, que teria resistido à ordem de prisão.

Militantes de esquerda estão se armando mais, como mostra o caso de Reinoehl. Mas supremacistas brancos, diz o Departamento de Segurança Interna, continuarão sendo a mais “persistente e letal ameaça” de atos extremistas nos EUA. Segundo um documento recentemente elaborado por esse departamento, as tensões políticas e sociais de 2020 continuarão a elevar as ameaças de terrorismo interno neste e no próximo ano. Com tantas armas em mãos civis, conflitos e atentados encontram um terreno fértil.




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