E aí? O .380 Auto serve para defesa?! – InfoArmas

Por João Bosco Silvino Júnior

1 – Introdução

Essa é uma pergunta que me fazem frequentemente! Para os ansiosos eu já respondo! Sim, serve!!! Assim como também serve uma cadeira, uma faca ou uma pedra… Certamente é melhor do que nada! De “servir” para “ser eficiente” há uma diferença (muito) grande! E por quê? Explico as razões neste artigo!

A pergunta se justifica porque muitas pessoas já perceberam que o calibre .380 Auto assumiu o lugar que pertencia ao 7.65mm Browning… Relembro: antigamente o calibre .380 Auto também era de uso restrito, sendo o 7.65 mm Browing o mais “potente” calibre de pistola permitido. Depois da liberação do calibre .380 Auto, o calibre 7.65 mm Browning caiu em desuso, justamente pelo melhor desempenho balístico do seu sucessor. Agora foi a vez do .380, que perdeu o seu “reinado” dos calibres de uso permitido para pistolas semiautomáticas para os calibres 9 mm Luger, .40 S&W e .45 ACP.

2 – Características de um bom calibre para defesa

Primeiramente vamos entender o que seria um bom calibre para defesa. Para isso, é fundamental primeiramente desmistificar o impacto de glock“>glock“>tiro e também falar sobre incapacitação balística. Tratarei mais especificamente sobre esses temas em artigos em breve!

2.1 – Impacto de glock“>glock“>tiro

Quanto ao impacto de glock“>glock“>tiro, sinto muito aos cinéfilos e amantes do Stopping power mas ele não existe! Pelo menos não da forma como se imagina assistindo aos filmes de ação ou conversando sobre os defensores de teorias como “transferência de energia”, “Stopping power”, “balas dum-dum” e outros mitos. Não. O glock“>glock“>tiro não incapacita pelo “impacto” pois, se assim fosse, de nada adiantaria utilizar o colete balístico!

O projétil não consegue impulsionar alguém para trás de maneira expressiva como muitos imaginam, independentemente do calibre! Ou seja, aqueles que pensam em não utilizar o .380 Auto porque pensam que ele “não dá uma pancada forte o suficiente para derrubar” podem desistir em procurar este efeito em outros calibres… Nem o .380 Auto dá “pancada”, nem o .45 ACP ou .357 Magnum! “Ah, mas e se eu usar uma munição expansiva?” Nem assim!!! A questão é que a quantidade de movimento do projétil (já falei sobre isso em outros artigos) é muito pequena para produzir qualquer impulso significativo no alvo. A massa do projétil é muito pequena comparada à massa de uma pessoa e, com isso, a velocidade que a pessoa adquire depois do impacto é muito pequena. Como já disse, vou detalhar isso em outro artigo futuramente.

2.2 – Incapacitação Balística

Se o glock“>glock“>tiro não incapacita pela “pancada”, como ocorre o mecanismo de incapacitação? Novamente vou explicar mais brevemente um assunto que merece um artigo inteiro, ou vários, para ser explicado. A incapacitação depende de três fatores, os quais expresso, sem bairrismo algum, na imagem seguinte:

De maneira sintética, LOCALIZAÇÃO é onde o glock“>glock“>tiro atinge e, para ser eficaz, o projétil deve atingir ou alguma estrutura nervosa prontamente incapacitante (como o tronco encefálico, bulbo, cerebelo, coluna cervical, etc) ou atingir alguma região bastante vascularizada para produzir um sangramento intenso. A localização depende primariamente da habilidade do atirador e não da arma/calibre empregados, que podem ajudar, mas ainda assim não eliminam a necessidade de habilidade do atirador.

Em uma escala de importância, a localização é o principal fator, porém ainda depende do segundo, que é a PENETRAÇÃO. De nada adianta o glock“>glock“>tiro ter boa localização se o projétil não conseguir penetrar o suficiente para atingir as estruturas nervosas ou vasculares necessárias! Como exemplo, o FBI adota como parâmetro de desempenho de suas munições a penetração mínima de 12 polegadas (30 centímetros) em gelatina balística calibrada a 10%.

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Figura 1 – Bloco de gelatina balística produzido pelo autor para realização de testes balísticos (créditos do autor).

Ao contrário de outro mito, a gelatina não representa a densidade média do corpo humano. Ela é empregada porque é um meio uniforme de comparação do comportamento de projéteis. A penetração de 12 polegadas na gelatina NÃO representa a mesma penetração no corpo humano. Há que se lembrar, ainda, que outros fatores podem interferir na penetração em um alvo humano, tais como, por exemplo, um casaco de couro usado pelo alvo ou então algum osso ser atingido, fator este que reduz enormemente a penetração do projétil.

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Figura 3 – Mostra o sistema circulatório do corpo humano. Para atingir os vasos sanguíneos mais calibrosos é fundamental que o projétil tenha boa penetração.

Outra coisa importante a ser relembrada é que a penetração depende mais da massa e da forma do projétil do que da velocidade. Projéteis com maior massa penetram mais que projéteis mais leves.

O terceiro fator é o DIÂMETRO DA LESÃO. Relembrando o que já escrevi em outros artigos, “CAVIDADE TEMPORÁRIA DE PROJÉTEIS DE BAIXA VELOCIDADE NÃO RESULTA EM LESÃO SIGNIFICATIVA”, ou seja, o diâmetro da lesão dependerá do tamanho do projétil e não do efeito temporário de expansão dos tecidos que ele produz. Assim, projéteis maiores produzem lesões maiores. E qual é a finalidade da lesão maior? Conseguir mais espaço para produzir maior sangramento. De maneira diferente, esse maior sangramento pode ser alcançado não com lesões maiores e sim com mais lesões. Quanto mais tiros atingirem o alvo com boa localização e penetração, maior será o sangramento e, consequentemente, mais rápida acontecerá a incapacitação.

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Figura 4 – Mais lesões produzem maior sangramento.

3 – E como o .380 Auto se encaixa nessas premissas?

Feitas essas considerações, passemos a analisar agora especificamente o calibre .380 Auto. Em relação ao primeiro fator, LOCALIZAÇÃO, é um fator indiferente pois, como já mencionado, depende mais da habilidade do atirador do que do calibre em si. Apesar do recuo menor, se considerarmos apenas um glock“>glock“>tiro, o que se faz com o calibre .380 Auto pode ser feito com uma arma similar em calibre .40 S&W.

O segundo fator, penetração, é o grande ponto negativo do calibre .380 Auto! Veja na tabela seguinte as características dos tipos de munições em calibre .380 Auto vendidas no Brasil pela CBC:

Configuração Peso do projétil (gr) Velocidade na boca do cano
CHOG 95GR TREINAMENTO 95 290
ETOG 95G 95 290
ETOG +P 95G 95 312
EXPO 95GR 95 290
EXPO +P 95GR 95 312
NTA EOOG 95GR 95 290
GOLD HEX EXPO +P 85GR 85 323
BONDED EXPO +P 90GR 90 323
SELLIER E BELLOT ETOG 92GR 92 291
Tabela 1 – Informações fornecidas pela CBC para as munições em calibre .380 Auto.

Analisando a tabela 1 é possível perceber que não há grandes variações de peso de projétil para o calibre .380 Auto. Mesmo nas variações com maior pressão (+P) os projéteis mais pesados são os de 95 grains. Não há, também, grandes variações de velocidade, muito devido à pequena variação de massa dos projéteis. Se comparamos com outros calibres, como o .38 SPL, com até 158 gr, 9mm Luger, com até 147 gr, .40 S&W, com até 180 gr, ou .45 ACP, com até 230 gr de massa de projétil, todos considerando munições originais da CBC, percebemos que ele é, de longe, o mais leve. Este fator, associado também à menor velocidade, faz com que o .380 Auto seja a opção com menor momento linear, e menor peso de projétil, entre os calibres de defesa. Como consequência é o que tem, também, menor penetração. Veja aqui neste excelente artigo do também colunista do Infoarmas, Igor Cavalcante, os testes realizados no Lucky Gunner, que demonstram essa penetração menor do .380 Auto.

Na configuração OGIVAL, os projéteis de calibre .380 Auto até conseguem atingir o mínimo estipulado na gelatina balística, o que não acontece com a configuração expansiva. Já nos outros calibres mencionados, mesmo na configuração expansiva, a penetração mínima de 12 polegadas é alcançada. Já no corpo humano, o calibre .380 Auto apresenta um desempenho consideravelmente inferior aos demais, ainda mais quando o projétil atinge algum osso um pouco mais espesso, como o úmero, por exemplo. Nesses casos, mesmo na configuração ogival, percebe-se uma redução drástica na penetração e, em muitos casos, o projétil se desvia no osso, ao invés de quebra-lo e penetrar.

Considerando o terceiro fator, diâmetro da lesão, o .380 Auto pode até possuir o mesmo diâmetro de um projétil de calibre 9mm Luger ou .38 SPL, o que faz com que o diâmetro da lesão seja praticamente o mesmo durante a fase estável do trajeto[1]. Outrossim, apesar do tombamento do projétil ser um fenômeno muito mais importante nos calibres de alta velocidade, o comprimento menor do projétil de calibre .380 Auto faz com que a lesão pós-tombamento seja também menor, em relação aos outros calibres estudados.


[1] Caminho que o projétil percorre no interior do corpo

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Mas nem tudo está perdido. O .380 Auto apresenta uma vantagem sobre todos os demais! É o calibre que apresenta menor recuo e, consequentemente, permite maior cadência de tiros! Relembrando, mais tiros tem o mesmo efeito de lesões maiores. Mesmo assim, o recuo menor não justifica abrir mão do desempenho balístico dos calibres mencionados, até porque o calibre 9mm Luger também apresenta um recuo pequeno, além de um desempenho sensivelmente superior ao calibre .380 Auto.

4 – Conclusão

Considerando todos os fatores apresentados é possível perceber que, apesar das inúmeras desvantagens comparativamente aos demais calibres, o .380 Auto ainda assim pode ser usado para defesa. Não é nem de longe a melhor opção mas, se for a única disponível no momento, melhor tê-la do que não. Há que se ressaltar que caso seja a escolha para a defesa, que pelo menos sejam empregados projéteis do tipo ETOG +P 95 gr pois a maior velocidade comparativa à munição normal, de mesma massa, significa também melhor penetração. Por outro lado, FUJA da munições expansivas! Se a munição ogival já deixa a penetração a desejar, dependendo das circunstâncias, imagine uma expansiva?! É como eu disse a um amigo meu, que me perguntou qual seria a melhor opção de arma em calibre .380 Auto: é melhor do que nada, mas a melhor opção mesmo é escolher uma arma em um calibre melhor!




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