Em artigo, Vladimir Safatle defende impeachment e diz: “Bolsonaro go home”

Em artigo publicado neste sábado 21, na versão brasileira
do jornal El País, o filósofo e professor da USP, Vladimir Safatle
defendeu abertamente o impechament do presidente Jair Bolsonaro, argumentando
que “o Brasil não pode ter duas crises a gerenciar, a saber, o coronavírus e Bolsonaro”.

O acadêmico cita o pedido protocolado nesta semana por
três deputados federais do PSOL – Fernanda Melchionna (RS), Sâmia Bonfim (SP) e
David Miranda (RJ) –, e disse que “aos que dizem nada adiantar trocar Bolsonaro
por seu vice gostaria de dizer que o foco de análise talvez esteja equivocado.
A questão coloca pelo impeachment não é `quem assume´. Antes, trata-se de
mostrar claramente que o país repudia de forma veemente quem age a todo momento
para solapar os espaços mínimos de conflito político e que demonstrou
irresponsabilidade e incapacidade absoluta de gerenciar forças para preparar o
país para lidar com uma epidemia devastadora”.

Depois, continua: “Bolsonaro é um agitador fascista e
um chefe de gangue narcísico que zombou do povo brasileiro e de sua
vulnerabilidade no momento em que devia ter baixado as armas, convocado um
governo de união nacional, sentado com a oposição e convergido forças para
colocar a sobrevivência das pessoas à frente das preocupações econômicas
imediatas e das preocupações políticas de seu grupo”.

Leia o artigo completo aqui:

Bolsonaro go home!

Por Vladimir Safatle*

Esse gesto tem força civilizadora. O Brasil não pode
ter duas crises a gerenciar, a saber, o coronavírus e Bolsonaro.

No dia 18 deste mês, três combativos deputados
federais (Fernanda Melchionna, Sâmia Bonfim e David Miranda) protocolaram um
pedido de impeachment contra Jair Bolsonaro na Câmara dos Deputados. Este
pedido foi assinado por vários membros da sociedade civil, entre eles por mim.
A este grupo, somaram-se mais de 100.000 assinaturas de apoio.

O pedido motivou algumas críticas vindas, inclusive,
da própria direção do partido de tais deputados, abrindo um debate importante a
respeito das estratégias da oposição neste momento. Por isto, gostaria de
aproveitar este espaço a fim de insistir que tais críticas estão profundamente
equivocadas e expressam, na verdade, falta de clareza e direção em momento tão
dramático de nosso país.

Duas questões se colocam a respeito de tal problema.
Primeiro, se devemos ou não devemos lutar pelo impeachment de Jair Bolsonaro.
Segundo, caso a primeira resposta seja afirmativa, há de se discutir quando um
pedido desta natureza deveria ser feito.

Sobre o primeiro ponto, normalmente os que recusam a
tese do impeachment afirmam que de nada adiantaria trocar Bolsonaro por seu
vice, o general Mourão. Tal troca, na verdade, equivaleria a entregar de vez o
controle do estado ao Exército, com consequências catastróficas. Há ainda
aqueles que dizem ser miopia política e irresponsabilidade administrativa lutar
pelo impeachment em meio a maior crise sanitária que o mundo conheceu desde há
muito. Melhor seria aproveitar o enfraquecimento de Bolsonaro e levar o estado
brasileiro a retomar investimentos no SUS, a revogar o teto de gastos, entre
outras ações.

Aos que dizem nada adiantar trocar Bolsonaro por seu
vice gostaria de dizer que o foco de análise talvez esteja equivocado. A
questão coloca pelo impeachment não é “quem assume”. Antes, trata-se de mostrar
claramente que o país repudia de forma veemente quem age a todo momento para
solapar os espaços mínimos de conflito político e que demonstrou
irresponsabilidade e incapacidade absoluta de gerenciar forças para preparar o
país para lidar com uma epidemia devastadora. Bolsonaro é um agitador fascista
e um chefe de gangue narcísico que zombou do povo brasileiro e de sua
vulnerabilidade no momento em que devia ter baixado as armas, convocado um
governo de união nacional, sentado com a oposição e convergido forças para
colocar a sobrevivência das pessoas à frente das preocupações econômicas
imediatas e das preocupações políticas de seu grupo.

Neste sentido, um impeachment neste momento teria um
valor civilizatório, pois deixaria claro que a sociedade brasileira não admite
ser comandada por alguém que se demonstra tão inepto e com interesses
exclusivos de autopreservação. Bolsonaro demonstrou nos últimos dias como é
capaz de produzir ações que desmobilizam as tentativas da sociedade em
conscientizar todos da situação em que nos encontramos. Suas ações custam
vidas. A questão sobre quem ocupará o lugar de Bolsonaro é um cortina de fumaça
que demonstra desconfiança na força destituinte da soberania popular. Este
mesmo argumento foi usado quando Michel Temer estava nas cordas, na ocasião da
greve dos caminhoneiros. Dizia-se que não fazia sentido troca-lo por Maia.
Hoje, Maia é endeusado por alguns como o esteio da racionalidade no Estado
brasileiro.

Já aos que afirmam que o momento é de lutar para
empurrar o Estado a aplicar políticas de proteção social, eu diria que os
últimos dias mostraram que isto é algo da ordem do delírio. Pois o Governo
aproveita a situação de caos para permitir às empresas cortarem jornada de
trabalho e salários pela metade, permitir licenciamentos sem custos, usar os
parcos recursos públicos para salvar empresas aéreas monopolistas especializada
em espoliar consumidores e pressionar pelas mesmas “reformas” que destruíram a
capacidade do Estado de operar em larga escala em situações de risco
biopolítico com esta. Ou seja, achar que é possível negociar com quem procura
toda oportunidade para preservar seus ganhos, com quem se serve do Estado para
espoliar o povo em qualquer situação que seja, demonstra incapacidade de saber
contra quem lutamos. Que aprendam de uma vez por todas: neoliberais não choram.
Eles fazem conta, mesmo quando as pessoas estão a morrer à sua volta.

Engana-se quem espera que Bolsonaro faça alguma forma
de reconhecimento da necessidade de políticas públicas fortes, como fez o
presidente francês Emmanuel Macron em momento de desespero. Isto apenas
demonstra como há setores da esquerda brasileira que nada aprenderam a respeito
de nossos inimigos. A eles, devemos insistir que a única maneira de realmente
combater a pandemia é afastando Bolsonaro do poder em um movimento que
mostraria, ao resto da classe política, o caminho da guilhotina diante da
cólera popular pela inação e irresponsabilidade do governo diante das nossas
mortes. Volto a insistir, esse gesto tem força civilizadora. O Brasil não pode
ter duas crises a gerenciar, a saber, o coronavírus e Bolsonaro.

Já os que falam que o momento é cedo para um pedido de
impeachment, que é necessário compor calmamente com todas as forças, diria que
isto nunca ocorrerá. A esquerda brasileira já se demonstrou, mais de uma vez,
estar em uma posição de paralisia e esquizofrenia. Ela grita que sofreu um
golpe enquanto se prepara rapidamente para a próxima eleição, sem querer ver a
contradição entre os dois gestos. Ela luta contra a reforma previdenciária
enquanto a aplica em casa. Ela não encontrará unidade para um pedido de
impeachment ou só encontrará muito tarde, quando setores da centro-direita e da
direita já tiverem monopolizado a pauta do impeachment.

Por outro lado, 45% da população é a favor do
impeachment de Bolsonaro (Atlas Político), a população manifesta-se
cotidianamente através de panelaços em bairros até então solidamente ancorados
no apoio a Bolsonaro, grupos que o apoiavam entrar em rota de colisão com ele.
Se este não é um bom momento para a apresentação do pedido, alguém poderia me
explicar o que significa exatamente “bom momento”? Quando estivermos todos
mortos?

Nestas circunstâncias, melhor respeitar um princípio autonomista de grande sabedoria estratégica. Em um campo comum, baseado na ausência de hierarquia e na confiança entre todos os que partilham os mesmos horizontes de luta, todos têm autonomia de ação e decisão. Ninguém precisa de autorização para fazer uma ação política efetiva. Dentro do campo comum ou seus membros implicam-se nas ações feitas de forma autônoma ou quem não concorda não atrapalha. Fora disto, é a posição subserviente de esperar que o líder (que não existe mais) dê sinal verde ou aponte o caminho para os demais. O que significa uma forma de submissão que nunca poderia fazer parte das estratégias daqueles que lutam por uma emancipação real.

Artigo originalmente publicado no El País.




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