Retrospetiva do realizador Kléber Mendonça Filho no Cinema Trindade, no Porto, termina esta quinta-feira

Está na reta final a retrospetiva da obra de Kléber Mendonça Filho, no Cinema Trindade, no Porto. O realizador brasileiro foi revelado em Cannes há alguns anos com “Aquarius” e confirmado na edição do ano passado com “Bacurau”.

Este último filme, em exibição, juntamente com o documentário sobre a sua produção, “Bacurau no Mapa”, foi corealizado com Juliano Dornelles, pode ser considerado um ensaio futurista série B – a presença de Udo Kier confirma-o -, como um western do sertão ou ainda como um tomar de pulso à sociedade brasileira, num terrível ponto de viragem.

Produzido ainda antes de Bolsonaro, é já sob a sua presidência que o filme estreia em Cannes. “Este filme nunca seria financiado pelo governo de Bolsonaro“, afirmou então Kléber ao JN. “Mas não é um problema só deste filme. Logo no dia da tomada de posse extinguiram o Ministério da Cultura. E tinham prometido fazê-lo na campanha eleitoral. Os obstáculos à produção de cinema são agora enormes”, desabafa o realizador.

“Aquarius”, que também esteve em exibição, é a história de uma mulher que recusa abandonar o seu apartamento, apesar da pressão de um forte grupo imobiliário. Ainda está fresca na memória a imagem do protesto de toda a equipa do filme, no alto da passadeira vermelha de Cannes, contra o processo de destituição de Dilma Rousseff.

Um filme onde Sónia Braga recordava a boa atriz que é, e que o realizador retoma em “Bacurau”, embora sem o mesmo protagonismo. “A Sónia Braga é muito generosa”, diz-nos o realizador. “No filme anterior, ela era estrela e atriz. Neste filme, o seu lado de estrela foi atirado para trás e ela é apenas uma personagem de composição. É muito generoso da parte dela perceber que aqui faz parte da orquestra, não é ela a solista.”

Em ambos os filmes a tensão imanente à história transforma-se em violência. O realizador está consciente da sua aposta, mas contrapõe: “Um filme pode ser violento, mas a realidade é sempre mais violenta que o cinema”, afirma. “A violência é destrutiva. É preciso recordar às pessoas os efeitos da violência gráfica.”

“Interesso-me pela negação da normalidade”

A sociedade brasileira tem sido varrida por enormes focos de tensão, na sua história mais recente. Algo que pode favorecer os criadores de cinema. “O conflito é tensão, e a tensão é o que faz um bom livro ou um bom filme”, refere o realizador, antes de definir o seu cinema: “Interesso-me pela negação daquilo que a sociedade define como normalidade. É sempre tenso quando a sociedade pensa que as coisas devem ir num determinado caminho. No Brasil há uma coisa muito assustadora: quando o governo faz uma coisa que é incrivelmente má, o mercado reage positivamente.”

Kléber Mendonça Filho dá o exemplo das armas. “A indústria das armas está feliz, mas eu estou triste. A ideia do amor pelas armas é algo que me deixa assustado. Só toquei numa arma uma vez na vida, durante umas filmagens. Era uma arma a sério, mas não estava carregada. Mas o governo brasileiro publicou um decreto a autorizar a entrada de vinte milhões de armas na sociedade brasileira.”

Apesar de tudo, o realizador não admite para já sair do seu país para filmar. “Adoro a minha casa. Vivo no Recife e sou feliz lá. Espero continuar a fazer filmes no Brasil. O Brasil é uma enorme fonte de pressão. Todas as sociedades o são, veja os Estados Unidos. A França tem as suas próprias tensões. A minha mulher é francesa. Mas o Brasil pode ser particularmente absurdo.”

A mostra dos filmes do realizador termina com “Crítico” (dia 27), um documentário sobre a relação entre o artista e o espetador, aproveitando a experiência de Kléber Mendonça Filho como crítico de cinema e os seus contatos com inúmeros realizadores de vários países.

É o próprio que nos recorda esse seu princípio de vida. “Durante muitos anos fiz o que você está a fazer agora, fui crítico de cinema e jornalista. Sempre achei que o melhor da vida é ir fazendo coisas novas. Adorei ser jornalista, agora estou a adorar ser realizador de cinema.”




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