Morte no Habib´s: testemunha muda relato e Justiça arquiva inquérito

Áudio obtido pela Ponte mostra como motorista mudou sua versão sobre morte de João Victor, 13 anos, arrastado por funcionários da lanchonete em 2017, na zona norte de SP

Após 1275 dias de investigação, o inquérito policial que investigava a morte de João Victor Souza de Carvalho, 13 anos, morto em frente a unidade da rede de fast-foods Habib’s, na Vila Nova Cachoeirinha, zona norte da cidade São Paulo, foi arquivado nesta segunda-feira (24/8). A decisão foi da juíza Ana Carolina Munhoz de Almeida.

João foi morto em 26 de fevereiro de 2017 após se envolver em uma confusão com dois seguranças do estabelecimento e as investigações eram conduzidas pelo 28ºDP (Freguesia do Ó), também na zona norte de SP.

De acordo com as investigação, João Victor pedia dinheiro para clientes da lanchonete, o que teria feito com que um gerente e um supervisor partissem em sua direção. Com um pedaço de pau na mão, o garoto teria sido perseguido pela dupla após bater em um carro parado no estabelecimento. Imagens de câmera de segurança mostram o momento em que ambos arrastam o garoto e o colocam no chão, já desacordado. À época, os funcionários negavam as agressões.

Ouça abaixo o áudio da chamada do 190

Na decisão, a juíza informou que acolhia as ponderações do Ministério Público e determinava, então, o arquivamento do inquérito policial. O arquivamento foi determinado após uma testemunha chave do caso, o motorista de uma linha de ônibus que presenciou a cena e ligou para a Polícia Militar, mudar seu relato.

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Na ligação feita para a PM, o motorista, que trabalhava no terminal de ônibus de Vila Nova Cachoeirinha, que fica em frente a unidade do Habib’s em que João Victor foi morto, afirma que uma criança estava sendo espancada pelos seguranças, sendo arrastado pela rua.

“O moleque desmaiou, tá aqui no chão desmaiado de tanto que apanhou dos seguranças”, afirmou o motorista. “Indiferente do que ele tenha feito isso não pode acontecer. Agora o moleque está desmaiado e os dois seguranças olhando. O segurança bateu à beça nele”.

O motorista afirmou no áudio gravado na ligação que João Victor estava convulsionando e roxo no chão. “Precisa mandar uma ambulância para cá”, afirmava. “Quero ver eles falaram que bateram nele. Ele tá roxo, roxo, e os dois olhando a besteira que fizeram”.

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Em novo depoimento, dado no 28ºDP em março de 2020, o motorista mudou sua primeira versão. A testemunha afirma que ligou para o Copom, mas, apesar de ter afirmado que viu os seguranças baterem em João Victor, e isso estar gravado anexada ao inquérito policial, “o fez para que efetivamente a polícia fizesse presente no local”.

O motorista também aponta que viu o momento em que João Victor caiu ao solo, desequilibrado, quando era seguido pelos seguranças, que corriam atrás do adolescente, mas que não viu os seguranças baterem nele.

Em novo depoimento, motorista nega que viu João Victor ser agredido

As apurações têm dois laudos já entregues, sendo um do IML (Instituto Médico Legal) e outro do drogas-foi-a-causa-da-morte-de-joao-victor-aponta-novo-exame/”>IC (Instituto de Criminalística). Ambos apontaram a causa da morte como parada cardíaca atrelada ao uso de drogas, como lança-perfume, rechaçando uma suposta agressão como fato da morte.

Em abril de 2017 foi realizada a reconstituição da morte do menino, levando em consideração a versão de duas testemunhas, que alegam ter visto o menino ser agredido pelos dois funcionários, e também a versão dos acusados, de que o menino teria caído logo após correr.

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Para o advogado Francisco Carlos da Silva, que representa Marcelo e a família de João Victor, “a polícia está a trabalho do Habib’s”. “É óbvio, por tudo que aconteceu durante todo esse inquérito policial, que eu acompanho desde o começo, a Polícia Civil está de joelhos perante ao Habib’s”, aponta.

“Tudo o que nós conseguimos foi judicialmente, como a exumação do corpo do João Victor, a liberação das imagens das câmeras que mostram o menino ser agredido, mas eles só foram lá meses depois, por ordem judicial, e tudo já tinha sido apagado”, lamenta.

À Ponte, Marcelo Fernandes de Carvalho, pai de João Victor, lamentou o arquivamento. “Eu nunca vi processo arquivado com provas e testemunhas. Tem caso de 20 anos e fica aí. Eu falei para o advogado que eles estavam enrolando, que iam inventar um monte de mentiras, desde o dia que mataram o meu filho”.

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“Agora temos que correr atrás, não deixar ser arquivado, ir na porta do Habib’s. Só quero que os caras que fizeram maldade com meu filho paguem. Se fosse eu, essas horas estaria mofando atrás das grades”, define.

Outro lado

A reportagem questionou a Secretaria da Segurança Pública, o Tribunal de Justiça de São Paulo e o Ministério Público, e aguarda retorno.

Matéria atualizada às 20h do dia 26 de agosto para incluir a fala do pai de João Victor




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