Mundo – NOTÍCIAS – O futuro da Líbia sem Khadafi

Dividida entre tribos e etnias diferentes, a Líbia pode entrar em uma espiral de violência, mas sem o ditador o país terá a chance, pela primeira vez, de criar uma sociedade livre

FIM PRÓXIMO Rebeldes líbios rasgam a bandeira verde do país (que representa o regime de Khadafi) em instalação militar em Trípoli. A capital do país está quase toda nas mãos dos rebeldes

Em menos de um dia depois de cercar Trípoli, a capital da Líbia, os rebeldes apoiados pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) tomaram o controle da cidade. A Praça Verde, agora informalmente chamada de Praça dos Mártires, virou palco de comemorações. A TV estatal, principal ferramenta de propaganda do ditador Muammar Khadafi, está fora do ar. O paradeiro de Khadafi ainda é desconhecido, mas três de seus filhos estão presos, em um sinal claro da derrocada de sua ditadura de 42 anos. O fim de Khadafi suscita uma questão entre muitas outras. Qual será o destino da Líbia daqui para frente? A resposta mais simples traça um paralelo entre a Líbia e outros países alvo de intervenções recentemente, como o Iraque ou Afeganistão. É possível que a Líbia siga esse rumo trágico, mas se há um aspecto sobre o Oriente Médio e o norte da África que ficou claro com o advento da Primavera Árabe é que os países da região são muito diferentes entre si.

Como ocorreu na grande maioria dos países que passaram por uma revolução, a Líbia enfrentará agora uma disputa interna por poder. O grande risco para o futuro do país é que esta luta se dê de forma violenta. Há razões para temer esse desfecho. A maior delas é a grande quantidade de divisões tribais e regionais existentes no país, um problema que foi suprimido pelo regime de Khadafi. Sem a força de seu regime, as tribos podem decidir resolver problemas antigos à força. Outra possibilidade é que grupos regionais que lutaram pela libertação do país questionem a legitimidade do Conselho Nacional de Transição (CNT), o governo formado em Benghazi, no leste do país, e que foi reconhecido como interlocutor pelos Estados Unidos, pela União Europeia e muitos países árabes. Na possibilidade de um confronto armado surgir, os rebeldes do CNT não terão mais a fundamental ajuda aérea da Otan.

Outro foco de violência possível é o sentimento de vingança que os rebeldes nutrem pelos aliados de Khadafi. Os dirigentes do CNT falam em levar os membros do regime, incluindo Khadafi, para a Justiça. Ainda assim, não é possível descartar que mortes extrajudiciais ocorram mesmo depois de o objetivo inicial dos rebeldes – tirar Khadafi do poder – ter sido conquistado. Uma mostra das divisões internas entre os rebeldes ocorreu em 28 de julho. O major-general Abdul Fatah Younis, ex-ministro do Interior de Khadafi, desertou no início do levante e se juntou aos rebeldes. Younis foi alçado ao posto de comandante militar dos rebeldes, mas acabou assassinado em circunstâncias pouco claras. O CNT afirma que partidários de Khadafi executaram o general e dois auxiliares, mas o crime pode ter sido obra de uma facção rebelde que buscava se vingar de atos cometidos por Younis quando este ainda era aliado de Khadafi.

Outro perigo para a Líbia é o fortalecimento de grupos radicais islâmicos. Sob Khadafi, participar de qualquer grupo oposicionista era um crime punível com pena de morte. Em 2006, no entanto, líderes da Irmandade Muçulmana da Líbia (que tem ligações meramente tênues com a Irmandade em outros países) conseguiram ser soltos sob compromisso de não atuarem contra seu regime. Durante a revolução, eles aderiram à causa dos rebeldes, mas não se sabe qual será o comportamento do grupo no futuro da Líbia. Com capacidade de se organizar de forma veloz, a Irmandade pode ganhar força. Grupos religiosos ainda mais radicais atuam no país. O governo dos Estados Unidos reconheceu que havia, nas tropas rebeldes, até homens que estiveram presos na famigerada prisão americana de Guantánamo, em Cuba.

Ainda que o futuro da Líbia pareça nebuloso, há motivos para um otimismo moderado. Quando invadiu o Iraque e o Afeganistão, o governo de George W. Bush não fazia a menor ideia de como agir uma vez que o ditador Saddam Hussein e os radicais do Talibã fossem depostos. Esse erro estratégico esta na base dos desastres que ocorrem em ambos os países. Na Líbia, o CNT parece muito mais avançado neste aspecto. Como escreveu o analista Brian Whitaker no jornal britânico The Guardian, a Constituição provisória divulgada pelo CNT na semana passada tenta abarcar os interesses de várias minorias, como os berberes, e procura contemplar o Islã ao mesmo tempo em que não o torna base das leis. Outra forma de o CNT se preparar para o pós-Khadafi foi planejar o chamado Grupo de Estabilização da Líbia, que deve ser formado por 70 pessoas e se reunir em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos.

Conta a favor da Líbia também o fato de que a estrutura militar do regime de Khadafi está quase que completamente destruída. Isso dificulta que aliados do ditador continuem a promover uma luta em grande escala contra os novos governantes. No Iraque, este foi um dos grandes problemas enfrentados pelas tropas americanas. Ao derrubar Saddam, os EUA decidiram desmontar o Exército iraquiano e o partido o ditador, o Baath. Armados, desempregados e frustrados, membros dessas duas entidades engrossaram as linhas de grupos que até hoje atuam contra os EUA e o governo iraquiano apoiado por Washington. Outra diferença fundamental entre a Líbia e o Iraque é que, enquanto xiitas e sunitas iraquianos podiam (e foram) manipulados por agentes externos, as tribos e grupos étnicos da Líbia parecem menos sujeitas a influências de Estados que busquem desestabilizar o país.

Por fim, há o petróleo. A Líbia é o 17º maior exportador do mundo e pode usar isso a seu favor. Ao contrário da Tunísia e do Egito, que também derrubaram seus ditadores, a Líbia tem um bem que pode se transformar rapidamente em benefício para conter o descontentamento popular. Normalmente, o que o Oriente Médio vê é uma luta incessante pela riqueza do petróleo, que corrompe o tecido social e político dos países. É contra esse determinismo que a Líbia terá que lutar.

Como se vê, o futuro da Líbia é incerto. Há inúmeros fatores que podem jogar o país em uma espiral de violência e de desastres humanitários. Mas há também a possibilidade de que os líbios consigam construir uma sociedade livre, como nunca houve no mundo árabe. Agora, ao lado de Tunísia e Egito, a Líbia tem, ao menos, a chance de tentar.




O QUE É O GUIA DO ATIRADOR ESPORTIVO?

O Tiro Esportivo é um esporte fascinante. Com o Guia do Atirador, você terá um passo a passo para solicitar seu CR junto ao Exército Brasileiro sem necessidade de contratar despachantes caros.

Compre agora sua arma, sem precisar de despachante!

-